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Utopias de um beato qualquer - Parte I

O Jornal do Brasil, no dia primeiro de fevereiro de 1981, publicou um caderno especial intitulado “A Chacina do Caldeirão”1. Aos leitores cariocas deve ter causado certo estranhamento essa matéria, que falava de uma “conspiração do silêncio” sobre o episódio ocorrido no Ceará nas décadas de 1920 e 1930. O caminho mais fácil para quebrar esse estranhamento foi o de associar a experiência do Caldeirão a uma outra, mais próxima dos leitores cariocas. Assim, segundo reportagem publicada no mesmo jornal em 13 de fevereiro de 1982, Caldeirão seria um “Canudos Menor” e o tal beato Lourenço teria reeditado Antônio Conselheiro. 2 Mas se essas histórias, do Caldeirão e do beato José Lourenço, eram pouco conhecidas dos leitores do Jornal do Brasil, para os nordestinos era diferente. O folclore, a literatura de cordel e mesmo a tradição oral se encarregavam de não deixá-las cair no esquecimento. Especialmente na região do Cariri, ao sul do estado do Ceará, as histórias sobre o beato Lourenço, seu boi Mansinho e a comunidade do Caldeirão povoavam o imaginário popular. A reportagem do jornal do Brasil, portanto, alçava ao plano nacional a história desse beato, permeada de mitos e lendas, que tanto fascinava os moradores do Cariri. Uma história em que religiosidade popular e política se fundem, e que se inicia em fins do século XIX.

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